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O Enfermeiro Depois de saber que o coronel o fizera seu herdeiro universal, Procópio cogitou recusar a herança. Receava, entretanto, que essa decisão levantasse suspeitas sobre a morte do antigo paciente. Resolveu, então, aceitar os bens e imaginou que poderia destiná-los, posteriormente, a obras de caridade, como forma de compensar o que havia acontecido.
No caminho de volta à vila, a lembrança daquela noite voltou a perturbá-lo. Aos poucos, porém, Procópio passou a modificar as palavras com que descrevia para si mesmo o episódio:
“Crime ou luta? Realmente, foi uma luta, em que eu, atacado, defendi-me, e na defesa...”
Recordou as agressões sofridas, atribuiu parte do comportamento do coronel à doença e considerou que ele já estava muito debilitado. Chegou, então, a admitir a possibilidade de que a luta e a morte apenas tivessem coincidido. À medida que repetia essas explicações, a lembrança do crime começava a assumir, em sua consciência, a aparência de uma fatalidade.
ASSIS, Machado de. O enfermeiro. In: ASSIS, Machado de. Várias histórias. Rio de Janeiro: Laemmert & C., 1896. p. 169-189. Disponível em: Portal Domínio Público, Ministério da Educação. Acesso em: 6 out.
2026. Fragmento adaptado.
A narrativa de Procópio concentra-se menos na investigação exterior do crime do que nos movimentos pelos quais a própria consciência do narrador procura explicar, atenuar e reinterpretar sua conduta.
Considerando a inserção de Machado de Assis no Realismo brasileiro, esse procedimento é significativo porque